UMA MÚSICA BEM ASSOMBRADA

Para quem vem acompanhando a produção de Alexandre Vieira ao longo desses vinte anos, duas qualidades saltam ao primeiro plano: de um lado, a seriedade do trabalho, sempre produzido com o cuidado e a sinceridade que lhe são características, e, de outro lado, a leveza de quem cria pela necessidade de compartilhar sua sensibilidade através daquela que talvez seja a arte primordial – a canção.

As influências mais diversas brotam espontaneamente nas belas melodias escritas por Alexandre. É música brasileira; é música sul-americana, é música latino-americana; é, enfim, música americana (das Américas).

A assimilação de múltiplos influxos e sua incorporação em um resultado espontâneo (o que parece ser um trabalho árduo em outros quadrantes do globo terrestre) é tão natural para nós, brasileiros, que pode ser entendido como sendo parte da nossa própria capacidade intuitiva. É com essa disposição de espírito que gostaria de convidar o leitor escutar as canções de Alexandre Vieira, pois aí estão representadas algumas das características mais cândidas do nosso modo de ser.

É o espírito crítico (e auto-crítico) aliado à delicadeza bem-humorada que encontramos em A Casa Bem Assombrada , No Meio da Calçada e Normal . São canções que já cativam o ouvido na primeira frase, dada a fluidez de suas melodias e a naturalidade dos arranjos.

É a sensação de movimento giratório do chamamé Chama-me , cujo caráter cíclico da melodia é intensificado pela harmonização e, especialmente, pelas intervenções do violino, que parecem nos transportar para uma realidade paralela – uma outra dimensão, talvez. Também Simples e Tudo nos transportam para outros mundos... o aroma à beira-mar, o gosto de mato, a noite citadina.

A minha teoria da ‘brasilidade' das canções de Alexandre Vieira seria necessariamente falsa se ele não demonstrasse ser um bossa-novista de primeira linha, daqueles que ‘fica rindo à toa quando a boa-nova acontece'. É isto o que ocorre em Pedro e Bando : a bossa-nova simplesmente acontece.

Há também as canções experimentais. Elas brotam tão organicamente da capacidade inventiva de Alexandre que quase esquecemos este seu lado. Dentre estas canções, podem ser citadas Demência e Arteiro , sendo que o acompanhamento de ‘piano virtual' desta última parece-me uma espécie de paródia dos estilos de J. S. Bach, Erik Satie e Tom Waits. E o mais extraordinário: todos eles juntos.

Aparentemente, nas últimas canções, Teu Encanto e Corações e Mentes (de 2003), Alexandre retorna às origens românticas da canção popular brasileira, com o intimismo das suas primeiras canções, porém com aquela estrada percorrida de cancionista que lhe possibilita não ser apenas lírico, como também flertar com o lirismo.

Caro Alexandre, ‘já é tempo de ir', mas não te ilude porque o ‘normal ‘ é que o ‘teu encanto' fique em nossos ‘corações e mentes', mesmo que seja ‘no meio da calçada'. Tu disseste, certa vez, que “foi muito trabalhoso fazer uma canção que soasse como se não tivesse dado trabalho algum”, pois, para mim (e creio que para nós), parece música que já nasceu pronta.

Um grande abraço, querido amigo, e feliz aniversário!

Fernando Mattos